Iniciativas em escolas da rede estadual mostram poder de mudança estética e comunitária através de intervenções artísticas

Presença já marcante em muitas escolas estaduais de Minas Gerais, a arte do grafite está sendo usada neste tempo de pandemia para trazer mensagens de esperança, agradecimento e motivação para muros e paredes internas de unidades da rede. Seja através de parcerias realizadas pelas escolas ou por iniciativas de arte-educação, os murais tornam os prédios locais de maior proximidade com a comunidade escolar.

No Centro-Oeste do estado, em Divinópolis, a Escola Estadual Monsenhor Domingos recebeu, no muro externo, um painel de grafite homenageando os profissionais de saúde que atuam na linha de frente da pandemia. Junto com representações de médicos, enfermeiros, técnicos de saúde, o painel foi entregue no dia da enfermagem (12/5) e virou um memorial para quem visita ou está passando nas proximidades.

Escola Estadual Monsenhor Domingos recebeu, no muro externo, um painel de grafite homenageando os profissionais de saúde. Foto: Arquivo da Escola

Segundo a diretora da escola, Ângela Soares Garcia, durante a movimentação na unidade para a retirada dos kits alimentação, muita gente exaltou a homenagem, já que muitos alunos são filhos de profissionais da área da saúde. Alguns ex-alunos que também atuam na área ou são estudantes universitários ou de cursos técnicos agradeceram o destaque e a lembrança da categoria.

“Um aluno nosso com Síndrome de Down foi tomar vacina e em seguida pediu que a mãe o trouxesse para tirar foto no mural. O mais bonito é que ressignificamos um espaço que muita gente não sabia nem que fazia parte da escola. Hoje temos uma homenagem e, quando a pandemia passar, teremos um registro da história no nosso muro”, destacou Ângela.

A pintura na escola divinopolitana é parte do Corra (Circuito Cores na Rua), iniciativa que já coloriu outros espaços urbanos. Responsável pela intervenção no muro, o artista Willian Pinguim lembrou do foco positivo da obra: “É um desafio fazer uma pintura que vai trazer um certo alento, um agradecimento da sociedade às pessoas que estão cuidando de todos nós”.

A diretora contou ainda que, nos próximos meses, a parceria será ampliada, com a pintura de um espaço de uso coletivo dos cerca de 700 alunos da escola, que quando retornarem para as aulas presenciais também escolherão o nome do espaço e farão oficinas de grafite com os artistas.

Coletividade

Em Ribeirão das Neves, um projeto desenvolvido pelo coletivo cultural Di Quebrada saiu dos muros da cidade e ganhou as paredes da Escola Estadual João de Deus Gomes, no bairro São João de Deus, região de Justinópolis. Além de trazer um contraste de cores fortes, os painéis trouxeram uma pergunta: “Qual cidade queremos?”. A resposta em forma de arte trouxe o pedido por mais respeito, paz, educação, coletividade e vida para as pessoas.

Artista e coordenador do coletivo, Bruno Sharp foi aluno da escola e lembrou da importância de fazer as coisas de maneira coletiva. “A gente é um bicho, um ser coletivo, então é só em comunidade mesmo que a gente consegue viver e defender os nossos. É um pouco disso que estamos mostrando aqui nessas pinturas”. Para a vice-diretora da unidade, Michele Oliveira, o grafite é a realidade da comunidade. “A arte pra mim é fundamental e ela está intrínseca à educação, porque ela salva,” destacou.

Na Escola Estadual João de Deus Gomes os painéis trouxeram pedidos de paz, educação e coletividade. Foto: Arquivo da Escola

O grafite é uma expressão de arte urbana, que ganhou força no final da década de 60 com o movimento de contracultura. É diferente da pichação, que é considerada uma contravenção e gera prejuízo por onde passa, incluindo nas escolas. O diretor da E.E. João de Deus Gomes, Rodrigo Ferreira, destaca que o poder dos painéis e pinturas vai além do embelezamento. Ele disse que a escola, que atualmente atende cerca de 500 alunos, já sofreu muito com a pichação e os murais ajudam a proteger o patrimônio.

“Quando um ex-aluno me procurou falando que estava montando um coletivo e conseguiu aprovar o projeto na Lei Aldir Blanc, logo demos anuência para que o espaço da escola fosse usado, pois essa é uma maneira rica de preservar o patrimônio. Além de fazer a pintura, remunerar os artistas, o coletivo também fez uma oficina online com a comunidade para ensinar grafite. Imagina o capital de transformarmos pichadores em artistas grafiteiros?” finalizou Rodrigo.

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