Grupo de 12 pessoas se reúne semanalmente para os estudos do projeto. Foto: Franciele Xavier (SEE/MG)

Alunos reunidos com o objetivo de descobrir o porquê de muitos de seus colegas não reconhecerem os valores da comunidade quilombola onde estão inseridos. Esse é um cenário frequente na Escola Estadual Quilombola Padre João de Santo Antônio, no distrito de Pinhões, em Santa Luzia, município da Região Metropolitana de Belo Horizonte, quando a turma do projeto de iniciação científica se encontra para colocar em prática o cronograma de pesquisa.

O projeto “Relações entre a construção da identidade quilombola e o processo de educação escolar das novas gerações – Pinhões, Santa Luzia / MG“ é um dos 74 aprovados para fazer parte do Núcleo de Pesquisa e Estudos Africanos, Afrobrasileiros e Diáspora (Ubuntu/Nupeeas), eixo que compõe o Programa de Iniciação Científica no Ensino Médio, conduzido pela Secretaria de Estado de Educação de Minas Gerais.

A professora orientadora do projeto, Janaína Vasconcelos, explica que, há cinco anos, a escola é reconhecida pela SEE como quilombola. No entanto, os professores percebem muita resistência dos alunos em se aceitarem como pertencentes a uma comunidade que representa a luta e o protagonismo negro em busca da liberdade na época da escravidão. “A nossa proposta de pesquisa é saber o porquê de esses estudantes associarem a cultura quilombola a algo negativo e não a um povo heroico que lutou, inclusive, pela sua sobrevivência. Essa questão de identidade quilombola ou da falta dela está muito presente na nossa escola, por isso resolvemos conduzir o projeto de iniciação científica nesse sentido”, explicou Janaína.

Depois de cumprir todos os processos do edital do Ubuntu/Nupeeas, em 2017, a Escola Estadual Padre João de Santo Antônio foi uma das 74 escolas que tiveram seu projeto aprovado entre quase 500 inscritos. Como 32 alunos se inscreveram para participar da pesquisa e havia vagas apenas para 12, foi feito um processo de seleção pela equipe escolar. “Reunimos professores, coordenadores, diretora, vice-diretor e funcionários da secretaria e da cantina para discutir quais estudantes tinham mais perfil de participar de um projeto de iniciação científica de acordo com seu comportamento em sala de aula, interação com os colegas e professores e interesse por livros e pesquisas.

Depois de escolherem os 12 alunos, mãos à obra. Com quase dois meses de atividade, o grupo está na fase de pesquisas. “Estamos lendo sobre a Lei 10.639/03, que trata do Ensino da História e Cultura Afro-Brasileira e Africana em todas as escolas públicas e particulares, sobre a Base Nacional Comum Curricular, diretrizes e bases da educação quilombola, teses de mestrado e doutorado sobre o assunto e muitos textos, de vários autores, entre eles a pedagoga Nilma Lino Gomes”, explicou a professora Janaína. As futuras etapas são pesquisas de campo com os alunos, moradores e integrantes das associações da comunidade, análise dos resultados, elaboração de gráficos e planilhas e, por fim apresentação para a comunidade escolar.

A estudante do 2º ano Josiele Perdigão considera única a oportunidade de participar do projeto e diz estar muito animada, apesar dos desafios que sabe que vai enfrentar. “Quero comprovar a nossa hipótese, que sugere a resistência dos alunos em se reconhecerem quilombolas ou em se sentirem pertencentes a nossa escola e, mais do que isso, quero ajudar a mudar isso, eliminar esse preconceito, essa dificuldade de aceitação de um passado de luta e resistência”, disse.

Para Josiele, oportunidade de participar da pesquisa de iniciação científica é única. Foto: Franciele Xavier (SEE/MG)

A aluna Liriel Santos, também do 2º ano, revelou que ela era uma das pessoas que tinha resistência em se reconhecer como uma descendente quilombola e que se interessou em fazer parte do grupo de iniciação científica exatamente pelo fato de querer quebrar essa barreira e conhecer melhor sobre o assunto. “Não me sentia representada, mas ficava incomodada com isso, porque sei que faz parte da minha história. Quando tive essa oportunidade já me inscrevi para tentar mudar isso e fico feliz de ter conseguido com pouco tempo de projeto, e estou fazendo o possível para mudar isso em outras pessoas também e fazer com que elas valorizem a nossa cultura”, disse

Para a diretora da Escola Estadual Padre João de Santo Antônio, Paola Catherine, é um orgulho ter um projeto como esse na escola, tanto pelo tema que defende quanto pelo que isso vai representar depois que os alunos se formarem. “Pesquisar o que eles propuseram é muito pertinente para esta escola, pois é exatamente isso que vemos aqui. Além de os alunos estudarem uma hipótese e se mobilizarem para tentar mudar essa visão de quem não se sente representado pela cultura quilombola, eles vão ter em seus currículos um detalhe importantíssimo que é a participação em um projeto de iniciação científica. Quando cursarem o Ensino Superior, pode ser que sejam os primeiros escolhidos para um projeto, pode ser que tenham um projeto selecionado em instituições de apoio à pesquisa, entre várias outras possibilidades”, afirmou Paola.

Assim que todas as etapas forem cumpridas e o projeto estiver finalizado, com o artigo escrito, o grupo fará uma apresentação para os alunos e também para a comunidade para mostrar os resultados da pesquisa. A expectativa da orientadora Janaína é grande, e todo o grupo garante que vai se empenhar para conseguir cumprir os objetivos. “Além de comprovar a hipótese e mudar o conceito dos alunos, queremos muito que o artigo seja publicado em uma grande revista. Pode ser que seja um sonho, mas acreditamos nele”, disse, inspirada, a professora.

Nupeeas/Ubuntu

O eixo Núcleo de Pesquisas e Estudos Africanos, Afro-Brasileiros e Diáspora (Ubuntu/Nupeeas) faz parte do Programa de Iniciação Científica no Ensino Médio. Seus projetos são estruturados a partir da linha de pesquisa Cultura, História, Trajetórias Político-Sociais e Científicas dos Africanos e Descendentes em Diáspora, e devem abordar uma das seguintes vertentes analíticas: cultura, memória, corporeidade, ancestralidade, construção e fortalecimento das identidades afrodescendentes na contemporaneidade, participação social, comunitária e política de combate ao racismo e à discriminação racial; africanidades, ciências, engenharias e tecnologias.

Iniciação Científica

O Programa de Iniciação Científica no Ensino Médio tem por finalidade viabilizar e apoiar a atividade de pesquisa e investigação científica para estudantes de Ensino Médio de escolas da rede estadual. Para os professores do Ensino Médio que orientam a pesquisa, há a concessão de extensão de carga horária para que desenvolvam os projetos de pesquisa selecionados.

A previsão é de que em novembro o grupo apresente os resultados para a comunidade escolar. Foto: Franciele Xavier (SEE/MG)