Arthur saiu de Divinópolis para morar em Belo Horizonte para cursar História na UFMG. Foto: Arquivo Pessoal

A ligação entre um projeto que pesquisa o entendimento sobre a cultura do congado e um curso superior em História que se iniciou em fevereiro de 2019, na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), está em um nome: Arthur Barra de Lima. O estudante de 18 anos sempre sonhou em ser professor e ao participar do grupo de estudos realizados no ano passado, na Escola Estadual Joaquim Nabuco, em Divinópolis (região Centro-Oeste), seu objetivo ganhou mais força.

Além de incentivá-lo a continuar almejando a entrada na universidade, o projeto de pesquisa “Congado: Festa de caráter carnavalesco ou expressão da identidade afro-brasileira?”, que é vinculado ao Programa de Iniciação Científica da Secretaria de Estado de Educação (SEE), também orientou a escolha do curso de Arthur. De acordo com ele, a opção por História não era sua primeira, mas tomou maior proporção com o desenvolvimento do projeto, que pertence ao Núcleo de Pesquisas e Estudos Africanos e Afrobrasileiros (Ubuntu/Nupeaas).

“Participar do Ubuntu com um projeto que teve o congado como tema foi muito importante pra mim, porque sou parte de uma família de congadeiros. Eu pude olhar para minha história e da minha família por meio de um projeto. O projeto despertou e mim um interesse maior sobre história da África, sobre cultura afro-brasileira, tanto que na UFMG já estou procurando núcleos de estudo, de iniciação cientifica a respeito de cultura afro, de religiões afro-brasileiras, até mesmo do congado, para fazer parte de algum”, diz o universitário.

Arthur se mudou para Belo Horizonte para fazer a faculdade e mora com uma tia. Ele, que se define como um aluno que não tinha o costume de estudar em casa na educação básica, agora tem que se acostumar com uma outra rotina. “Sempre fui aquele estudante que presta atenção nas aulas e anota o que o professor fala. Agora, na universidade, não existe essa possibilidade. Tenho que ler muito em casa para entender o que vai ser discutido nas aulas, estudar para os seminários, é muito material para leitura. Mas, apesar de bem cansado, essa rotina me deixa muito feliz porque posso dizer que estou realizando um sonho.”

No seu núcleo familiar, formado por mãe, padrasto e irmã, Arthur será o primeiro a ter um diploma de curso superior. E o maior incentivo que ele teve e tem para isso vem exatamente dessas pessoas mais próximas. “Cresci com esse apoio e ouvindo que tinha que dar continuidade aos estudos e ter a minha profissão. Antes, eles me estimulavam a entrar para o ensino superior. Agora, que estou no primeiro período, dão a maior força para que eu faça um mestrado. E por aí vai. Fico feliz com isso porque vejo que se importam comigo, com meu futuro”, disse Arthur.

O futuro professor de História, Arthur Lima, durante viagem de trabalho de campo em Ouro Preto com os colegas que também foram pesquisadores no projeto de iniciação científica. Foto: Arquivo Pessoal

O projeto

De acordo com a professora orientadora do projeto na Escola Estadual Joaquim Nabuco, Juliana Vasconcelos, a ideia surgiu para tentar entender a percepção das pessoas sobre o congado em Divinópolis – tanto de quem participa, quanto de quem assiste.

“Nosso objetivo era saber os diferentes olhares para o congado na cidade. E percebemos que, de dentro, é a manutenção de uma memória e identidade coletiva que celebra a cultura afro-brasileira. De fora, é percebido como uma festividade carnavalesca, à qual pouco se atribui o significado de uma expressão histórica e de fé. Os alunos ficaram muito envolvidos com essa pesquisa, pois é totalmente diferente de uma pesquisa escolar comum. Percebi que isso estimulou ou intensificou neles o desejo de cursar o ensino superior”, afirmou Juliana.

Para Arthur, inclusive, o conceito de “Ubuntu”, nome dado ao eixo ao qual o projeto pertence, foi um dos fatores que mais agregou conhecimento a ele, dentro do processo de pesquisas. “Um significado que diz ‘eu sou porque nós somos’ é o resgate de uma memória coletiva. E o congado é também é isso”, afirma o acadêmico.

Iniciação Científica e Ubuntu/Nupeaas

O Programa de Iniciação Científica no Ensino Médio leva a experiência de pesquisa e extensão a estudantes e professores de instituições de ensino estaduais de todas as 47 Superintendências Regionais de Ensino (SREs). A ideia é incentivar, apoiar, valorizar e dar visibilidade à produção e compartilhamento de conhecimentos e saberes, a partir do ensino e da aplicação de metodologias de pesquisa científica no Ensino Médio.

O programa está estruturado em dois eixos. Um deles é o “Núcleo de Pesquisas e Estudos Africanos, Afro-brasileiros e da Diáspora” (Ubuntu/Nupeaas), que tem como enfoque a promoção da igualdade racial pautada no reconhecimento da diversidade como elemento preponderante para o desenvolvimento escolar. Foram selecionados 94 projetos para integrar o eixo Ubuntu/Nupeaas, que é realizado em parceria com a Fundação de Apoio à Pesquisa de Minas Gerais (Fapemig) e Ação Educativa.

O outro eixo, “Territórios de Iniciação Científica (TICs)”, estimula estudantes e professores a identificar problemas, da escola ou da comunidade, com a construção coletiva de soluções para resolvê-los ou minimizá-los por meio de Coletivos de Pesquisa nas escolas. Os projetos são distribuídos nas áreas de conhecimento Ciências da Natureza e suas Tecnologias; Matemática e suas Tecnologias; Ciências Humanas e suas Tecnologias e Linguagens e Códigos e suas Tecnologias. Em 2018 foram criados 33 Coletivos de Pesquisa e Iniciação Científica e foi realizado um encontro estadual de apresentação dos projetos de pesquisa.

Histórias inspiradoras

Confira abaixo outras histórias inspiradoras de estudantes da rede estadual que a partir do Programa de Iniciação Científica estão cursando o ensino superior ou se preparam para realizar esse sonho.

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