O segundo dia do Encontro de Escolas de Ensino Médio Integral e Integrado e Territórios de Iniciação Científica (TICs) da Secretaria de Estado de Educação de Minas Gerais (SEE) teve início, na manhã desta terça-feira (4), com a apresentação dos 33 projetos que fazem parte do programa de iniciação científica da SEE.

Pesquisas dos mais diversos temas tomaram conta de um dos saguões do Tauá Resorts Convention, em Caeté, na região metropolitana de Belo Horizonte, onde acontece o encontro. Entre elas, estava a que recebeu o nome de “Horta Escolar com Plantas Medicinais usando Lixo Orgânico”, de alunos da Escola Estadual Antônio Carlos, em Juiz de Fora, Território da Mata, que não vai se encerrar quando o artigo for publicado.

De acordo com o professor e orientador Lucas Nascimento Menezes, o objetivo do projeto começou com o interesse dos alunos em pesquisar sobre as propriedades das ervas medicinais que estavam ao seu alcance e em repassar esse conhecimento aos colegas. “Instigamos os estudantes a pensarem: ‘será que precisamos mesmo tomar um paracetamol toda vez que temos uma dor de cabeça ou um chá resolveria o problema?’. E aí começou o projeto, que se ampliou porque os alunos perceberam que a escola produzia uma grande quantidade de lixo orgânico, e resolveram pesquisar como usar isso para potencializar a horta de plantas medicinais”, disse o orientador.

Lucas afirma, ainda, que um dos maiores desafios foi reunir todo o grupo, composto por nove alunos, já que uns estudavam no período da manhã e outros da noite. No entanto, mesmo com as dificuldades, todos conseguiram fazer com que o projeto chegasse à fase final, que é a redação do artigo para ser publicado em janeiro de 2019. “Eu aprendi tanto quanto eles, e o maior prêmio, na minha opinião, é ter um artigo publicado no nome deles em pleno Ensino Médio. Eles merecem e isso é um resultado muito satisfatório”, disse o professor.

Um dos integrantes do grupo, Gabriel José dos Santos Reis, já conhecia sobre o processo de transformação de resíduos orgânicos em substâncias para o solo e sempre gostou de pesquisas sobre o meio ambiente, mas acredita que o projeto, além de ampliar seus conhecimentos, conseguiu alcançar resultados que permanecerão por mais tempo. “Percebemos que os alunos e os funcionários da escola começaram a participar muito do projeto e levaram isso para toda a comunidade escolar, e aí todos abraçaram a causa de transformar lixo orgânico para fortalecer nosso cultivo próprio. Todos se mobilizaram, inclusive os pais de estudantes, e isso foi um resultado muito expressivo, porque falar de compostagem era quase um enigma para eles”, diz o estudante.

Já a conquista pessoal, na opinião do jovem pesquisador, é imensurável. “Foi meu primeiro projeto de iniciação científica, então aprendi muito sobre elaborar um trabalho, sobre metodologias de pesquisa, sobre apresentar um projeto. Não tem como explicar, o conhecimento que adquiri ninguém vai me tirar e, pelo contrário, quero incentivar outras pessoas a fazerem o mesmo. E além de tudo sei que, como eu me formo este ano, assim que chegar na faculdade já vou saber como é esse trabalho de pesquisa científica”, disse o Gabriel.

Para o ano que vem, além da publicação do artigo, os integrantes do projeto planejam a produção de um livreto que ensinem desde crianças a idosos sobre a importância das plantas, da compostagem e das ervas medicinais, sobre como fazer hortas dentro de casa, técnicas de irrigação para quem não dispõe de tempo, entre outros assuntos. “As questões de meio ambiente têm que ser tratadas desde o mais novo até os mais velhos, dentro de escolas e universidades e dentro de casa, pois todo mundo tem que conversar sobre isso, não é mais uma questão apenas científica”, disse o orientador Lucas.

Pesquisa da cultura local mostra marco social

Em outro projeto, cujo estande não ficava vazio por nem um minuto, o tema da pesquisa foi os saberes da comunidade da zona rural do município de Caparaó, no Território do Caparaó. Os sete alunos da Escola Estadual Professor Francisco Lentz escolheram pesquisar “Os aspectos polissêmicos nas realizações do verbo panhar”. De acordo com Gabriel Rufino Deboçãn, um dos estudantes pesquisadores, o tema escolhido para o projeto do TICs é uma forma de valorizar a cultura regional e o conhecimento popular tão disseminado entre os moradores.

“Uma criança pequena já sabe o significado da palavra ‘panha’. E a questão da polissemia, ou seja, a variação que a palavra sofre em termos de significado, acaba sendo um marco social na nossa região, que é cafeicultora. Se uma pessoa fala, por exemplo, que ‘panhou um carro por vinte mil reais’, já sabemos que a pessoa adquiriu o carro de segunda mão, pois se fosse novo falaria ‘tirei um carro por valor tal’. Outro exemplo é quando alguém diz que ‘essa semana trabalhou panhando café’, que dá para saber que essa pessoa trabalha para o dono da terra, pois sabemos que o dono da terra não faz a colheita. Então, com essa pesquisa, percebemos aquilo que antes só fazia parte do nosso cotidiano, e que agora sabemos que está além, que tem todo um significado por trás”, esclareceu Gabriel.

Alunos da Escola Estadual Professor Francisco Lentz, do município de Caparaó, apresentaram o projeto de pesquisa “Os aspectos polissêmicos nas realizações do verbo panhar”. Foto: Franciele Xavier (ACS/SEE-MG)

A professora e orientadora do projeto, Jacqueline Helen de Lima, considera que o TICs é uma oportunidade fantástica de levar pesquisa cientifica para o Ensino Médio. “A iniciação científica, antes, era só na graduação, e somos de uma escola considerada do campo. Trabalhar a Língua Portuguesa a partir do que eles vivem, e como pesquisa, foi fantástico. Foi muito enriquecedor pra eles e pra mim também, pois aprendi muito mais do que ensinei. E tudo que temos de palpável no projeto veio exclusivamente dos alunos, que trouxeram a vivência deles para dentro da pesquisa e, a partir disso, conseguimos levantar os aspectos polissêmicos do verbo escolhido”, disse, orgulhosa, a orientadora.

Jacqueline, que foi professora dos jovens pesquisadores antes de iniciar o projeto de iniciação científica, comemora o avanço no conhecimento dos alunos, mesmo que eles nem percebam. “Eu percebi como eles cresceram quando um professor veio comentar comigo que alguém disse a eles que conjugar o verbo ‘panha’ é errado, e que eles souberam explicar, com riqueza de detalhes, o que é a variação linguística e que não existe ‘falar errado’. Existe sim, a norma padrão, mas existe a variação que é rica, linda e válida do mesmo jeito. Nossa intenção é exatamente tirar esse estigma do ‘panhar’, que era conhecido como um falar de caipira, interiorano, e elevar esta variação para valorizar o que é nosso. E estou orgulhosa de os estudantes terem absorvido isso completamente”, disse Jacqueline.

Devolutivas e diálogo

Além da apresentação dos projetos dos TICs, a programação do segundo dia envolveu oficinas, rodas de conversa e dinâmicas de grupo que funcionaram como um momento para ouvir o que a Secretaria de Estado de Educação tem a dizer sobre os avanços, dificuldades e desafios de implementar e manter os projetos de Ensino Médio Integral e Integrado e de Territórios de Iniciação Científica e também de ouvir professores e alunos envolvidos sobre suas experiências e sobre o que eles acreditam que pode melhorar.

A coordenadora geral da Educação Integral e Integrada, Cecília Resende, reuniu-se com diretores de 78 das 79 escolas que oferecem o Ensino Médio nessa modalidade. Em uma palestra que foi iniciada com um vídeo emocionante sobre crianças que escutaram pela primeira vez, ela falou sobre a impossibilidade de gerir uma política pública sem se colocar no lugar do outro.

“Todos se emocionaram com esse vídeo porque se colocaram no lugar dessas crianças que nunca tinham escutado qualquer som na vida e, com esse apoio que vocês viram, conseguiram. Faz 17 meses que a Secretaria de Estado de Educação arrancou do zero uma proposta de Ensino Médio Integral e Integrado no nosso Estado. E quando eu digo arrancar do zero é arrancar não tendo nada. Agora já estamos com 79 escolas com atendimento a mais de 13 mil estudantes, cerca de 7 mil professores atuando, entre os designados, efetivos, da base comum, da parte flexível, da parte flexível dos técnicos, 2 mil servidores, entre ATBs, ASBs. Estamos com 42 regionais de ensino, em 75 municípios diferentes, ofertando oito cursos técnicos integrados ao Ensino Médio distintos nas escolas, mais de 30 atividades nos campos de integração curricular, entre gastronomia, dança, judô, violão, flauta, conversação em língua inglesa, e, hoje, neste encontro, 56 relatórios circunstanciados que foram realizados e respondidos entre os dias 27 de setembro de 30 de novembro de 2018. E agora estamos aqui, para ouvir de vocês, exatamente o que aconteceu nestes 17 meses: o que estudantes, professores, gestores e funcionários de escolas e SREs relatam”, disse, aos presentes, a coordenadora da política de educação integral e integrada nas escolas estaduais de Minas Gerais.

Já a diretora de Juventude da SEE, Haline Ferreira dos Santos, reuniu os orientadores e alunos pesquisadores dos TICs das 33 escolas estaduais presentes para, da mesma forma, ter um momento de troca de relatos e experiências. “Esse é um momento de culminância dos projetos, que estão acontecendo desde novembro do ano passado. Então a gente teve um encontro, em novembro do ano passado, em que a gente trabalhou um pouco sobre metodologia e projetos, só com professores. Eles voltaram para as escolas e desenvolveram a metodologia e projeto com estudantes, então este é um momento de eles apresentarem o que foi produzido, e é muito importante a presença desses estudantes, porque a gente consegue ver a questão do protagonismo juvenil, a autonomia e o empoderamento que eles têm em relação à pesquisa. Além de ser uma oportunidade para todos conhecerem os projetos um dos outros. A nossa avaliação, até o momento, é muito positiva. É muito bonito ver como esses jovens se apropriaram da pesquisa e conseguem falar, com propriedade, sobre os temas. Fico emocionada, é muito gratificante”, disse a diretora.